A responsabilidade epistêmica e o risco de não ser levado pelo diabo.

Segundo a narrativa da torre de Babel, contida no Livro do Gênesis (Bíblia), numa época em que “o mundo inteiro falava a mesma língua, com as mesmas palavras“, uma torre começou a ser construída pela humanidade, que estava unida, para chegar ao céu, visto que o homem queria ser como Deus. O projeto foi interrompido após Deus confundir a linguagem de cada um, para que assim todos falassem uma língua diferente. Como resultado, eles já não conseguiam comunicar-se entre si, e o objetivo não foi realizado. Com a confusão e diversidade da língua os povos se dispersaram, vale lembrar que “BABEL”, em hebraico, apresenta a ideia de “confundir” ou “confusão”.

Toda relação humana fundamenta-se em relações significativas. Nos relacionamos por signos. Cada coisa, cada fato, ao ser captado pela experiência sensível, entra no cadinho do inteligível e recebe o seu signo. Dos signos, temos o símbolo. Segundo Saussure o signo está estruturado em significado e significante. O signo por si é arbitrário. E mais, o símbolo, um tipo de signo, é abstrato e convencional, não guarda uma relação direta com a realidade, como nos apresentou Charles S. Pierce.

Ora, abstrair é separar os aspectos acidentais dos essenciais. Por acidental entendemos as características mutáveis, transitórias, agregadoras, mas que não são essenciais ao ser, não o determina. Essencial é justamente que torna o ser o que ele é. Assim, um símbolo nos remete ao essencial, ou ao universal (no sentido escolástico).

Buscar “ser como Deus” é ver a realidade na sua universalidade, que existem em si mesmo num domínio espiritual, transcendente, e só pode ser conhecida pelo intelecto, e não pelos sentidos, e para conhecer, é necessário ter acesso aos universais eternos e imutáveis.

Mas somos seres sensíveis, e para tanto precisamos de representações, que devem ser precisas e rigorosas, para que a unidade reine ou, no mínimo, tenha uma harmonia para estabelecermos uma comunicação que apresente uma responsabilidade epistêmica.

Tentar alcançar o céu, pode sempre nos levar a uma babel, confusa e dispersa. E precisamos ter a responsabilidade e honestidade epistêmica para evitar essa dispersão e confusão. Isso é tão necessário que houve, por exemplo, a realização da convenção do Sistema Internacional de Medidas, unificando as medidas para que todos os cientistas possam ter um critério e uma referência em comum.

O símbolo tem em sua característica semiótica o caráter arbitrário e convencional. Etimologicamente, símbolo pode ser compreendido com uma ideia de reunião, junção. O oposto do símbolo é o “diabolô”. E aí que vem a desgraça humana, o diabo presente, visando caluniar, separar. E com isso a mentira, o erro, as notícias falsas. Não é mera questão de jogo de palavras: é semiótica e semiologia. [i]

Em sua obra, Deleuze e Guattari afirmam que:” a luta com o caos só é o instrumento de uma luta mais profunda contra a opinião, pois é da opinião que vem a desgraça dos homens” (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p. 265)[ii]. E toda opinião, por definição, é subjetiva, uma ideia imprecisa da realidade, manifestação de sentimentos, sem fundamentação e sem o rigor conceitual tão exigido num pensamento objetivo, que se apoia em argumentos.

Você poderá dizer: ué, mas não posso emitir uma opinião? Sim, e deve, mas com a humildade de saber da possibilidade de ela ser ou verdadeira ou falsa. De se permitir ser avaliado e de se autoavaliar, verificando se seus conceitos são precisos e corretos ou se são os mesmos usados pelo seu interlocutor. De permitir-se avaliar-se conceitualmente, na sua precisão simbólica, na sua representatividade.

Penso que vivenciamos, atualmente, em pleno século 21, essa babel nas discussões políticas e sociais. A falta de um rigor conceitual, de definição ou de representatividade, nos leva a uma dispersão, nos remete a confusão, nos divide, nos separa, nos leva ao diabo! Falta-nos essa mesma responsabilidade e honestidade epistêmica. Tão comum, e talvez mais fácil, nas ciências matemáticas e naturais, mas tão frágil nas ciências humanas.

Muitos, ao procurar emitir suas opiniões, fazem pelo senso comum. A responsabilidade e honestidade epistêmica, para quem quer de fato debater com sinceridade de aprendizagem e maturação, deve-se dar com a superação desse senso comum e prezar pelo bom senso: pensar de forma organizada, sensata, sistemática e buscar conceitos precisos e rigorosos, ou seja, definições claras.

O senso comum é prejudicial, pois, pelo fato de não apresentar as características mencionadas, pode alimentar preconceitos, erros e injustiças nas suas considerações ou avaliações. E a correção para isso é pensamento crítico: ser criterioso no que fala. E ser criterioso é buscar critérios, e no caso da fala, enquanto representação, é o critério da definição, dos limites conceituais, na referência precisa e não dúbia.

O rigor conceitual é uma determinação para quem quer realizar um debate sério, maduro, racional e produtivo. No campo político, se se quer debater sobre capitalismo, liberalismo, comunismo, deve-se ter a hombridade de usar suas expressões corretas, suas definições originárias. Hoje em dia, “comunismo” é usado como xingamento, não como um possível regime político, ou como doutrina. “Liberdade” é usado visando atender seus interesses particulares de ação. Confunde-se antifascismo sem se opor ao capitalismo. Falta honestidade, falta responsabilidade. São movidos por uma força diabólica que o leva a deturpar o sentido originário. Lembremos: o diabo é o pai da mentira!

Talvez por isso que Deleuze e Guattari em sua obra “O que é filosofia?”, em sua conclusão – “Do caos ao Cérebro” – nos fala:

“Pedimos somente um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo, ideias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras, que também não dominamos. […] Perdemos sem cessar nossas ideias. É por isso que queremos tanto agarrarmo-nos a opiniões prontas. Pedimos somente que nossas ideias se encadeiem segundo um mínimo de regras constantes, e a associação de ideias jamais teve outro sentido: fornecer-nos regras protetoras, […] que nos permitem colocar um pouco de ordem nas ideias, […] impedindo nossa “fantasia” (o delírio, a loucura) de percorrer o universo no instante, para engendrar nele cavalos alados e dragões de fogo. Mas não haveria nem um pouco de ordem nas ideias, se não houvesse também nas coisas ou estados de coisas, como um anti-caos objetivo[…] enfim, para que haja acordo entre coisas e pensamento, é preciso que a sensação se reproduza, como a garantia ou o testemunho de seu acordo […]

(DELEUZE; GUATTARI, 1992, p.259)[iii]

Conceituar, definir, sem entrar em implicações mais profundas, são atos que visam relacionar a consciência com a realidade: produzir conhecimento. E mais, ao produzir o conhecimento e comunicar, usamos representações, imagens, gráficas ou sonoras, para expressar nossas ideias. Criar símbolos é criar pontes entre o que penso e o que quero comunicar. E se há símbolos já criados, então devo ser honesto e responsável em assumi-los, e caso não concorde com eles, criar outros. E se for o caso de redefini-los, então que isso fique bem explicado e compreendido.

Jamais devo adicionar minhas crenças pessoais, subjetivas, como substitutos para a ausência de argumentos ou provas insuficientes. Crer em duendes não torna a existência deles objetiva para todos. Apenas é uma manifestação interna, pessoal, que pode ser compartilhada, mas que nunca saberemos se o que eu penso e sinto de duendes é o mesmo que outro pensa ou sente, e principalmente provar sua existência. O conceito de átomo torna-se mais objetivos, pois há métodos e recursos, lógicos e laboratoriais, dedutivos ou indutivos, que comprovam sua realidade. Contudo, na ciência, na responsabilidade epistêmica, há a permissão para abertura, para o erro, e para a correção.

Conhecimento não é crença verdadeira. Conhecimento é pensamento fundamentado em fatos, em cálculos ou em argumentos. E assim como na geometria existem os axiomas (ponto, reta e plano), nas discussões políticas temos que partir de “axiomas”, os conceitos, para formular “postulados” e teorias. Temos que ter o rigor e a transparência conceitual.

O oposto de “simbólico” é o “diabólico” o “que desune”. Enquanto o “símbolo” reúne em um só significante vários significados – a síntese de conceitos – o “diábolos” realiza o inverso, desfazendo, separando, esmiuçando, os vários significados de um significante – a análise de conceitos.

O simbólico, ao fazer uma reunião de diversos conceitos em um signo só, facilita o acesso a esses conceitos. Porém, a força diabólica analisa o conjunto conceitual, desmonta e revela uma especificidade maior dos conceitos que se agregam formando esse conceito maior, e, epistemológica e cartesianamente falando, torna mais claro e distinto o conceito em questão.

Porém, sem a responsabilidade e honestidade epistêmica tão repetida aqui, essa força diabólica traz à tona as possíveis tensões internas daquele signo único, que abriga diversas individualidades conceituais. E aí está o perigo, a semente da mentira. Se ela for regada com crenças, com a pessoalidade, com a subjetividade, com as emoções ou sentimentos, num solo do senso comum, nasce a mentira e a cilada. Lembremos: diabo é o pai da mentira.

Cabe lembrar Kant, em uma nota que ele apresentou no seu Prefácio da Primeira Edição da Crítica da Razão Pura:

“De vez em quando, ouvem-se queixas acerca da superficialidade do modo de pensar da nossa época e sobre a decadência da ciência rigorosa. Pois eu não vejo que as ciências, cujo fundamento está bem assente […] mereçam no mínimo que seja, uma censura. […] Esse mesmo espírito mostrar-se-ia também eficaz nas demais espécies de conhecimentos, se houvesse o cuidado prévio de rectificar os princípios dessas ciências. À falta desta rectificação, a indiferença, a dúvida e, finalmente a crítica severa são outras provas de um modo de pensar rigoroso.”

(KANT, 1994, p. 5) [iv]

Portanto, que tenhamos retificação e crítica severa para não cairmos no abismo do obscurantismo e da ignorância. A exigência epistemológica, responsável e honesta, é um dever de quem se compromete a trabalhar com o saber. O amante do saber é aquele que cuida, zela e vivencia muito mais o caminho para se chegar à verdade, que a própria verdade. E no caminhar não podemos nos deixar vacilar pelos apelos do diabo para não cairmos na cilada de sermos levados para a multiplicidade ou diversidade.


[i] BAILLY, Anatole. Dictionnaire Grec Français. Paris: Hachette, 2000. διάβολος: que désunit. (p 463). σύμβολος: qui se rencontre avec.(p. 1822).

[ii] DEULEZE, Gilles, e GUATTARI, Félix. O que é filosofia? 1ª edição. Rio de Janeiro: Ed.34, 1992.

[iii]Idem.

[iv] KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. 3ª edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994.

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