
Nem a mão nua nem o intelecto, deixados a si mesmos, logram muito. Todos os feitos se cumprem com instrumentos e recursoss auxiliares, de que dependem, em igual medida, tanto o intelecto quanto as mãos. Assim como os instrumentos mecânicos regulam e ampliam o movimento das mãos, os da mente aguçam o intelecto e o precavêm.
Francis Bacon ( 1997, p 33)
Na Idade Média, era comum considerar os acontecimentos e os fenômenos de acordo com os ideais religiosos, como simples vontade de Deus e os conhecimentos seguiam essa base. Contudo, no século 16, na Europa, modificou-se o modo de pensar e o homem passou a ser visto como o grande protagonista dos acontecimentos, revivendo os valores da Antiguidade clássica greco-romana através do humanismo e do espírito crítico, com o Renascimento.
De criatura submissa o ser humano torna-se responsável e consciente por si mesmo e suas ações, não mais subordinado à vontade divina. Essa mudança radical da estrutura de pensamento de toda uma época, na política, nas artes, na intelectualidade e até na religiosidade, tem como base o fim da tradição como autoridade e na busca do critério de verdade. O que motivou a necessidade de se construir e de assentar um fundamento para conhecimentos inteiramente novos.
Em pleno século 21, vivemos uma idade média pós-moderna: terraplanismo, movimento antivacina, fanatismo religioso, autoritarismo, negacionismo etc. Movimentos sempre persistentes. Ventos que tendem a tirar a embarcação da rota da sensatez, do senso crítico, a semelhança dos séculos anteriores ao século 16. Há sempre um movimento que tenta romper e modificar as forças de um pensamento racional, alimentadas por crendices e pela ignorância, somado a um fanatismo e motivado por uma falta de responsabilidade e honestidade epistemológica[1].
A questão é que sempre olhamos esses acontecimentos na sua totalidade, e esquecemos que a história é feita por indivíduos. As crenças individuais sempre foram as forças alimentadoras dos movimentos. Modificá-las é como alterar o curso das velas sobre a pressão das correntes de vento. Entre o orçar e arribar, sabe-se que o barco, proporcionalmente, depende mais da área da vela que propriamente do vento. As vezes não se pode mudar o vento, mas pode-se ajustar as velas[2]. E o ajuste de velas depende de indivíduos conscientes dessa decisão de seguir uma rota firme.
E o que há de diferente entre os séculos 16 e 21? A velocidade de propagação das informações, que fortalece e amplia a criação de mentiras e informações distorcidas. A mentira ganhou novos meios – e com a velocidade que chega, se espalha, sobretudo com teorias conspiratórias, pensamentos anticientíficos, fundamentalismo religiosos e uma mídia sem compromisso com a verdade e os fatos.
Hoje o celular é um apêndice da consciência e a janela para o mundo. Olha-se para o celular ao acordar e antes de ir dormir. Olha-se as mensagens e assuntos, que nem sempre são notícia, e não expõe, não se leva para o debate. Lê, vê, assimila, coaduna e fecha o seu instrumento de acesso à informação sem comparar, cotejar. E num ato de concordância, replica a mensagem para os seus, para todos aqueles que compartilham com o mesmo grau de sentimentos e opiniões. É verdade? O que importa: satisfez à minha emoção, então é verdade.
Corrigir todas as mentiras que circulam nas redes sociais é praticamente impossível. Essa propagação é um projeto de produção em massa que não permite ao indivíduo de se defender. A mentira é empregada de maneira tão ostensiva que não há mais como checar. Sufoca e cega. Sobretudo quando uma pessoa está propensa a receber e aquiescer essas falsas informações. E todos conhecemos a triste frase atribuída ao nazista Joseph Goebbels: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. É assim que trabalha um fascista.
Mentir não é algo novo. Sobretudo no campo político: o principal espaço para a propagação de inverdades, sendo a mentira muitas vezes usada como recurso para alcançar o poder. E justamente nesse jogo, todo e qualquer pensamento que tenha uma roupagem “lógica”, fortalece e mascara a mentira.
E como combater essas mentiras? Talvez usando o mesmo método empregado pelo “primeiro dos modernos e o último do antigos”, como ficou conhecido: Francis Bacon. Este filósofo muito contribui para eliminar ou pelo menos evitar a propagação dessa onda de fanatismo e ilusão, de mentira e arremedo. Onda que hoje reina com cheiro mórbido em alguns países, incluindo o Brasil e seu governo fúnebre do período presente.
Não pretendo aqui aprofundar o método baconiano nem discutir se teve êxito em seu intento , e se esse era de fato seu intento, mas compreender a sua crítica em relação às nossas concepções e conhecimentos e entender como pessoas, instruídas e letradas, são capazes de cair em armadilhas de mentiras.
Lendo-o, encontro nele um espírito tão fecundo, criativo, altivo e diligente, que me alimenta a compreender, pelejar e reagir contra essa onda de falsidades, esses ventos da discórdia. Como ele, se insurgir contra a perpetuação de autoridades religiosas e políticas fundamentalistas. Autoridades que, assim como na época de Bacon e sua Europa medieval e nos primórdios da idade Moderna, norteiam com força os rumos da vida política, econômica e social.
Em Bacon, vemos que há muito de política (no sentido original dessa palavra) em seus estudos epistemológicos: não queria mais encontrar as respostas nas autoridades, combatendo as especulações que tinha deixado toda produção da época sem senso da realidade, onde todo pensamento da época era constituído de preconceitos, caprichos, preferências e ídolos impostas à natureza. Buscava-se mais o que agradava como afirmação verdadeira, sem se preocupar se era verdadeira, para daí inferir como a natureza das coisas deveria funcionar, aplicando à ciência e transferindo à natureza o que existe meramente na imaginação.
“Daí a suposição de que no céu todos os corpos devem mover-se em círculos perfeitos, rejeitando por completo linhas e espirais e sinuosas, a não ser em nome […] E esse engano prevalece não apenas para elaboração de teorias como também para as noções mais simples.” (BACON, 1997,p 41-42)
Ao invés de indagarmos sobre as coisas, nos prendemos a um discurso vazio de palavras, às quais nem sequer atribuímos um sentido objetivo, universal e unívoco, sempre infectado e corrompido pelas nossas emoções. Tanto que somos capazes de rejeitar o diferente o diverso. Parafraseando a citação acima, sendo o círculo uma linha regular que nos agrada, concluímos que as órbitas planetárias são círculos perfeitos, ignorando as elipses e outras secções cônicas. E no geral confundimos continuamente o que importa à ciência com o que respeita à religião, produzindo um conhecimento contaminado de superstições e em uma fé eivada de heresias.
Vale lembrar que se existe a mentira é porque falta o embate e a argumentação, para ser combatida. Contudo, argumentar se faz através do debate de propostas, e hoje se vê que as discussões, sobretudo as discussões políticas, ficaram centradas nas pessoas.
Por isso, para Bacon, precisamos “desembaraçar o caminho” para que o silêncio se faça e assim ouvir os “testemunhos verdadeiros referentes à dignidade do conhecimento”, nos livrando dos “descréditos e infâmias […]; procedentes todos eles da ignorância; […] severamente disfarçada, mostrando-se ora no zelo e suspeita dos teólogos, ora na severidade e arrogância dos políticos, ora nos erros e imperfeições dos próprios sábios”( BACON, 2007, p. 19).
E é justamente a falta de um espaço de debate, alimentadas com as notícias falsas difundidas em redes sociais, que contribui para essa falta com a dignidade do conhecimento. Ao se debater, assume-se o compromisso de ir atrás da verdade. E essa busca pela verdade é um processo, mas para isso é preciso um espaço de debate, algo que não ocorre nas redes sociais.
“‘O que é a verdade?’ – indagava Pilatos em tom de pilhéria […]. Similarmente, há muitas pessoas que encarando como uma servidão a necessidade de ter opiniões e princípios estabelecidos, querem gozar de inteira liberdade tanto em seus pensamentos como em suas ações. A seita dos filósofos[3] que de tudo duvidavam desapareceu […], entretanto, são encontrados ainda muitos espíritos vagos e incertos que parecem contagiados pela mesma mania, embora não detentores de tanto vigor e profundidade como aqueles antigos. Todavia, a causa que creditou e consagrou tantos erros [consistiu] no apego corrupto à própria mentira.” (BACON, 2001, p. 21)
Nas redes sociais, as pessoas querem apenas uma mensagem rápida, só há a receptividade a partir dos seus padrões de interesses e percepções. Se alimentam de opiniões e princípios estabelecidos. E mais, não apenas quem recebe a mentira acredita na informação, mas também quem a produz. Isso faz parte do campo da imaginação, que torna real e aceitável, lógico e coerente, aquilo que ele produz e coaduna com os seus sentimentos. A perpetuação e propagação da mentira requer aceitação e plausibilidade, fruto de uma realidade social e do contexto político que incrementam as emoções e fomentam o desejo de estar sempre certo, com isso se cria arremedos, simulacros e ficções.
Como Francis Bacon, que honra a dignidade do conhecimento verdadeiro, e como indivíduos que procuram honrar com o bom senso, com um conhecimento sólido e consistente fundamenta em fatos, devemos nos armar contra as ilusões, as falácias, as mentiras.
Há um princípio básico na lógica de que “a verdade é lógica, mas nem tudo que é lógica é verdadeiro”. E Bacon nos ensina o método, ou pelo menos, o caminho para não cairmos nos erros insanos e nos desviarmos da rota da razão, da sensatez e da responsabilidade de se ter consciência da falibilidade que todos nós estamos sujeitos. E essa consciência nos torna capazes de tolerância e empatia.
Mas por que erramos? De onde vem essa capacidade de produzirmos conhecimentos falsos ou falaciosos, mas considerarmos tão verdadeiros e fundamentados que nos alimenta, formando em nós crenças e opiniões imprecisas. Segundo Bacon:
“O intelecto deixado a si mesmo, na mente sóbria, paciente e grave, sobretudo se não está impedida pelas doutrinas recebidas, tenta algo na outra via, na verdadeira, mas com escasso proveito. Porque o intelecto não regulado e sem apoio é irregular e de todo inábil para superar a obscuridade das coisas. […] As antecipações[4] são fundamento satisfatório para o consenso, pois se todos os homens se tornassem da mesma forma insanos, poderiam razoavelmente entender-se entre si. Ainda mais, as antecipações são de muito mais valia para lograr o nosso assentimento, que as interpretações; pois, sendo coligidas a partir de poucas instância e destas as que mais familiarmente ocorrem, desde logo empolgam o intelecto e enfunam a fantasia; enquanto as interpretações, pelo contrário, sendo coligidas a partir de múltiplos fatos, dispersos e distanciados, não podem, de súbito, tocar o intelecto, de tal modo que, à opinião comum, podem parecer quase tão duras e dissonantes quantos os mistérios da fé” (BACON, 1997, p.36-38)
A mentira, ou uma opinião falsa, é uma percepção individualizada, por isso de fácil assentimento. A pessoa que perdeu um ente assassinado num assalto se alimenta muito da ideia de que o combate a violência se dará apenas com a posse de arma, e não com justiça social, pois a percepção de “ter uma arma para se defender” empolga o intelecto e enfuna a fantasia.
Ora, seria compreensível entender esses erros nas pessoas que agem pelo senso comum, que tem pouca instrução ou que não recebeu nenhum estímulo intelectual. Mas não é o que o fato nos mostra. Encontramos muitos que se movimentam nessas vias do simulacro. Nós mesmos podemos cometer esses deslizes: quem nunca enviou uma ‘fake news’ que atire a primeira pedra! Fotos montadas, frases atribuídas a autores sem fontes reconhecidas (eu mesmo me inspirei em uma acima, mas tive o cuidado de avisar), apelo a uma autoridade irrelevante etc. Tudo isso para agradar o nosso ego e acariciar nossas emoções.
Entretanto, mais uma vez Bacon nos sinaliza: “se sintam obrigados a renunciar às suas noções e comecem a habituar-se ao trato direto das coisas”(BACON, 1997, p. 39).
Precisamos renunciar e remover os obstáculos da mente, entraves ao conhecimento verdadeiro, isto é, expurgar os ídolos da mente humana, atentos às reais e possíveis falhas as quais estamos sujeitos em nossa busca do conhecimento da verdade, razão pela qual a atividade intelectual não envolve, somente, a produção do saber, mas também a constatação daquilo que não representa o autêntico saber.
Devemos ter consciência de que podemos ou ir ao encontro da falsidade e do vício ou entrar na rota da verdade e da virtude. Um espírito ignorante, iletrado ou apedeuta pode acertar mais, que um espírito com falsas ideias ou ídolos. É mais fácil limpar e arrumar uma sala vazia do que uma sala cheia de objetos inúteis e com móveis amontoados. Dentro delas podemos encontrar muitas coisas úteis, porém o trabalho em separar o que é lixo do que não é, é maior e muitas vezes desestimulante. E se encontramos alguém que vê uma lógica nesse lixo, um sentido que reforça os sentimentos, aí mesmo que a limpeza fica difícil. Convencê-la da arrumação é antes de tudo mudar o seu olhar afetivo sobre a realidade. Enfim, iletrados ou não, cultos ou não, com diplomas ou não, podemos todos emitir opiniões, defender ideias ou movimentos absurdos e ilógicos que são contrárias aos fatos, aos especialistas, à razão.
A causa disso? Os ídolos “ que ocupam o intelecto humano e nele se acham implantados” e “obstruem a ponto de ser difícil o acesso da verdade”(BACON, 1997, p.39). E não se enganem, caros leitores, todos nós estamos propensos a segui-los:
“um embusteiro pode extrair algo do nada, porque uma mentira produz uma opinião e esta produz resultados bastante concretos e efetivos […] porque da mesma forma que o ferro afia o ferro, as proezas e jactâncias de uns estimulam o valor dos outros”(BACON, 2001, p 172)
A Teoria dos Ídolos
Bacon, didaticamente apresenta os quatro gêneros de ídolos que nos dificultam o encontro com a verdade, ou pelo menos, com o bom senso, estimulados por falhas nas percepções e no raciocínio, bloqueando a mente humana: Ídolos da Tribo, Ídolos da Caverna; Ídolos do Foro e Ídolos do Teatro. Os dois primeiros estão relacionados ao indivíduo, os dois últimos, tratam das suas relações sociais e culturais.Vejamos cada um deles:
Ídolos da Tribo
“Estão fundados na própria natureza humana, na própria tribo ou espécie humana” (BACON, 1997, p 40). Os ídolos da tribo têm sua origem nas deficiências naturais da espécie humana. Surgem por falhas nas percepções que temos da realidade, nem sempre compatíveis com os fatos em si, ou com a realidade.
“Mas os maiores embaraços e extravagâncias do intelecto provêm da obtusidade, da incompetência e das falácias dos sentidos. […] Por isso, a observação não ultrapassa os aspectos visíveis das coisas, sendo exígua ou nula a observação das coisas invisíveis. […] Na verdade, os sentidos, por si mesmos, são algo débil e enganador; nem mesmo os instrumentos destinados a ampliá-los e aguçá-los são de grande valia. E toda verdadeira interpretação da natureza se cumpre com instâncias e experimentos oportunos e adequados, onde os sentidos julgam somente o experimento e o experimento julga a natureza e a própria coisa.” (BACON, 1997, p. 44)
Ora, se há falha nos sentidos e nas percepções, a consequência imediata é impressões viciosas que nos descaminham e nos levam ao erro, com a formação de preconceitos e interferências dos sentimentos devido as impressões distorcidas que temos da realidade, reduzindo a complexidade de um conhecimento a um campo de simplicidade, mas sempre levando em conta o que lhes convém, ou seja, dando origem a crenças infundadas, superstições etc. Os ídolos da Tribo formam em nossos intelectos devaneios e miragens que nos impede de ver a verdade. Com isso qualquer mensagem recebida, mesmo que falsa, que se compatibiliza com nossas emoções, será acolhida e anuída como verdadeira.
Percebemos assim, a importância de criarmos padrões de medidas: o número e o cálculo não se apoiam nas percepções, mas no intelecto puro. Combater os ídolos das tribos é ter a humildade de reconhecer que a minha percepção nunca será igual ou melhor que a de ninguém. Há diversidades de percepções. Cabe alinharmos essas percepções, entendendo que há percepções contraditórias, e algumas contrárias, para então partirmos para conceitos mais precisos e verdadeiros.
Ídolos da Caverna
“São os dos homens enquanto indivíduos. Pois cada um […] tem uma caverna ou uma cova que intercepta e corrompe a luz da natureza: seja devido à natureza própria e singular de cada um; seja devido à educação ou conversação com os outros”(BACON, 1997, p. 40). Enfim, a educação que recebemos, o livro que lemos, as autoridades que respeitamos e seguimos (padres, professores, autores, filósofos, políticos), os hábitos que formamos, os eventos contingentes, que somados as impressões que ocorrem de acordo com impulsos emotivos e valorativos, provocam em nós várias e múltiplas perturbações, e assim formamos uma caverna onde só vemos o mundo por sombras refletidas nas paredes.[5]
Como é comum cada pessoa se contagiar e aderir a certas verdades por julgar ela completa e aplicável em qualquer realidade, pelo empenho e familiaridade, passam a avaliar e considerar tudo por essa ótica particular, tomada como a única verdadeira e aplicável. Sem falar das disposições peculiares de cada um: uns podem ser mais analíticos, outros mais sintéticos, não encontrando uma justa medida.
Aqui encontramos o ídolo que promove ou estimula o uso do tão famoso argumento de autoridade. Podemos embasar um argumento na opinião de uma autoridade, mas que seja competente (afinal, estou usando uma autoridade aqui para fortalecer o meu pensamento). Mas jamais recorrer a uma autoridade irrelevante, que não é especializada no assunto ou de uma autoridade vaga, de um coletivo indefinido (“os cientistas disseram….” ou “Médicos confirmam que…”) ou por força de uma tradição.
“O intelecto humano, quando assente em uma convicção (ou por já bem aceita e acreditada ou porque o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda que em maior número, não observa a força das instâncias contrárias, despreza-as, ou, recorrendo a distinções, põe-nas de parte e rejeita, não sem grande e pernicioso prejuízo […] O intelecto humano não é luz pura, pois recebe influência da vontade e dos afetos, donde se poder gerar a ciência que se quer. Pois o homem se inclina a ter por verdade o que prefere”. (BACON, 1997, p.42-43)
Uma pessoa recebendo uma mensagem (falsa) de uma autoridade vista por ela como decente e digna, seja professor, pastor, padre, escritor, músico, amigo, entre outros, raramente terá o cuidado de verificar o teor e a qualidade dessa mensagem. O combate a esse ídolo se faz em evitar o excesso de zelo por certas épocas, personalidades ou pensadores. “todo entusiasmo deve ser afastado e deve-se cuidar para que o intelecto não se desvie e seja por ele arrebatado em seus juízos”. E continua, Bacon: “todo estudioso da natureza deve ter por suspeito o que o intelecto capta e retém com predileção. Em vista disso, muito grande deve ser a precaução para que o intelecto se mantenha íntegro e puro.” ( BACON, 1997, p. 46)
Ídolos do Foro
“Há também os ídolos provenientes, de certa forma, do intercurso e da associação recíproca dos indivíduos […] entre si, […]. Com efeito os homens se associam graças ao discurso, e as palavras são cunhadas pelo vulgo. E as palavras, impostas de maneira imprópria e inepta, bloqueiam espantosamente o intelecto. Nem as definições nem as explicações com que os homens doutos se munem e se defendem, em certos domínios, restituem as coisas ao seu lugar. Ao contrário, as palavras forçam o intelecto e o perturbem por completo. E os homens são, assim, arrastados a inúmeras e inúteis controvérsias e fantasias” (BACON, 1997, p.41)
Nada melhor que o próprio Bacon para falar. Esse ídolo é tão comum e hoje o que mais se apresenta nas redes sociais. A ideia de foro trata justamente de um espaço público que serve de reunião ou mercado, onde realizam-se debates, assembleias, discussões ou julgamentos. As redes sociais tornaram-se a nova ágora grega, a tribuna, a praça romana dos debates e discussões. Contudo, uma praça mais para babel[6]. Segundo o próprio Bacon:
“Os ídolos do foro são de todo os mais perturbadores: insinuam-se no intelecto graças ao pacto de palavras e nomes. Os homens, com efeito, creem que a sua razão governa as palavras. Mas sucede também que as palavras volvem e refletem suas forças sobre o intelecto, o que torna a filosofia e as ciências sofísticas e inativas. As palavras, tomando quase sempre o sentido que lhes inculca o vulgo, seguem a linha de divisão das coisas que são mais potentes ao intelecto vulgar”(BACON, 1997, p. 46)
Quantas discussões seriam evitadas se tivéssemos o cuidado com as definições e as palavras. Até os doutos perdem esse cuidado ao não cuidar das definições, dos argumentos e se deixar levar pelas emoções. Bacon ainda alerta para as espécies que se apresentam nesse ídolo através das palavras: ou “são nomes de coisas que não existem” ou “são nomes de coisas que existem, mas confusos e mal determinados e abstraídos das coisas, de forma temerária e inadequada”. A primeira tem origem em teorias vazias e falsas, a segunda, mais complexa e mais profundamente estabelecida e é formada por uma abstração errônea e inábil. Combate-se a primeira pela constante refutação e supressão das teorias que as sustentam, e elimina-se a segunda por análise, comparações, experimentos, verificações, aferições e confrontações.
Ídolos do Teatro
São ídolos provenientes de “diversas doutrinas filosóficas e também pelas regras viciosas da demonstração”(BACON, 1997, p. 41), doutrinas essas que parecem fábulas teatrais, fictícias e ilusórias, aparentando peças de teatros, criando um teatro de ilusão, replicando e dissimulando com mentiras, ou pretensos retalhos de verdades
Bacon reforça ainda que esses ídolos não são inatos nem se incutiram de forma oculta no intelecto, foram amplamente introduzidos por vários sistemas que se apresentam com especulações fabulosas, ilusórias e dissimuladas. E contra elas não se admite nenhuma argumentação, e sim sua negação total, já que se apoiam em “experimentos vulgares” e distorcidos, “levados pela vaidade” para caberem em “tradições amparadas pela fé e pela veneração de gentes”. (BACON, 1997, p.48-49).
Um exemplo atual é o uso vulgar da física quântica como terapia psicológica: mescla-se conceitos, métodos e criam-se narrativas que se fecha em um sistema para que as mentes vulgares acolham e acedam como verdades plenas, muitas vezes como objetivo de lucro. Ou nos meios de comunicação, onde se percebe muitas “representações”, como por exemplo os jornais televisivos que não transmitem as notícias como fundadas em fatos e buscando apresentar os pensamentos divergentes, criando todo um clima emotivo e não crítico, onde o âncora se mostra muito mais como apresentador de programa de auditório que telejornalismo, levando o público a um insulamento da realidade.
Conclusão
Bacon nos ensina que a melhor forma de evitar os erros de percepção e raciocínio, não aceitar mentiras como verdades, se alimentar de superstições e crenças, generalizações, enfim, combater os ídolos, é se colocar em uma posição sempre precavida e duvidosa perante todo conhecimento que se apresente como verdadeiro. Ter a consciência de que somos passíveis de sermos levados pelos ídolos, que nos mostram como como o intelecto e os sentidos humanos são frágeis.
O conhecimento verdadeiro, a ciência, o pensamento justo e fecundo só progride através da superação dos obstáculos epistemológicos, através do processo de retificação dos erros, obstáculos ao conhecimento que não se revelam pelos frágeis sentidos humanos, mas sim no próprio ato de conhecer, presentes no próprio sujeito cognoscente.
Uma mente crítica e autocrítica é a única capaz de ajustar as velas para velejar em mares seguros da verdade, evitando as propagações de mentiras e ideias distorcidas. Entretanto, mais que um ato epistemológico, é preciso uma postura ética, pois a ideia de liberar e purificar a mente denota uma reforma moral do homem no mundo, e não apenas uma reforma do conhecimento, um querer mudar. Essa urgência de purificação do intelecto humano das noções falsas implica tornar os homens novamente crianças, ou, nas palavras de Francis Bacon:
“Já falamos de todas as espécies de ídolos e de seus aparatos. Por decisão solene e inquebrantável todos devem ser abandonados e abjurados. O intelecto deve ser liberado e expurgado de todos eles, de tal modo que o acesso ao reino do homem, que repousa as ciências, possa parecer-se ao acesso ao reino dos céus, ao qual não se permite entrar senão sobe a figura de criança.”(BACON, 1997, p 54)
Todos aqueles que se empenha a seguir o caminho do pensamento justo, do julgamento honesto, deve seguir o legado nos deixado por Francis Bacon e fazer uma análise crítica e profunda dos ídolos e dos obstáculos epistemológicos que nos impedem de distinguir o belo, o bom e o justo. E assim afastar e sufocar as crendices, ignorâncias e mentiras que têm desolado e desmantelado com a nossa ciência e política.
Referências
BACON, F. Novo Organum. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo: Nova Cultura Ltda., 1997.
___________Ensaios sobre moral e política. Tradução de Edson Bini. Bauru: EDIPRO, 2001.
___________O progresso do conhecimento. Tradução de Raul Fiker. São Paulo: UNESP, 2007.
[1] Falo disso em: https://cogitarecotejar.blog/2020/06/04/a-responsabilidade-epistemica-e-o-risco-de-nao-ser-levado-pelo-diabo/
[2] Há uma frase atribuída a Confúcio (“Você não pode mudar o vento, mas pode ajustar as velas do barco para chegar aonde quer”) mas que infelizmente não tenho referências. Cito-a para esclarecer ao leitor que já a li e me inspirei nela.
[3] Os Céticos da Escola de Pirro de Elis.
[4] “Para efeito de explanação, chamamos à forma ordinária da razão humana voltar-se para o estudo da natureza de antecipações da natureza (por se tratar de intento temerário e prematuro). E à que procede da forma devida, a partir dos fatos, designamos por interpretação da natureza.” BACON, 1997. P.37.
[5] O termo “caverna” tem sua inspiração na conhecida Alegoria da Caverna de Platão, usado aqui metaforicamente.
[6] Leia: A responsabilidade epistêmica e o risco de não ser levado pelo diabo.
